Estamos preparados para investigar crimes que possam ocorrer por ocasião da Copa do Mundo e Olimpíadas?

Investigação Forense

Investigação Forense

O Brasil inseriu-se definitivamente no cenário esportivo internacional na medida em que logrou êxito em tornar-se sede de eventos esportivos de grande importância.
Certamente é um motivo de orgulho para todo o povo brasileiro.
Mas para aqueles que realmente conhecem um pouco da realidade da segurança pública de nosso país, eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas podem significar sérias ameaças a reputação do país.
Para um perfeito entendimento do que vamos expor, torna-se necessário lembrarmos alguns eventos recentes que marcaram a história mundial.
Os atentados de 11 setembro de 2001, trouxeram à discussão para forças de segurança dos Estados Unidos e unidades policiais do mundo inteiro um novo conjunto de questões relacionadas a investigações forenses.
Além das tarefas tradicionais que devem ser executadas durante uma investigação criminal, as forças policiais dos Estados Unidos passaram a ter um conjunto de preocupações adicionais: a identificação em massa de mortos.
Como conseqüência dos atentados de 11 de setembro, peritos e o pessoal de laboratórios foram chamados para realizar a identificação em massa das vítimas mortas, como ocorreu em Nova York, no Pentágono e nos campos do oeste da Pensilvânia.
Já em outros episódios recentes, na maioria ocorridos nos Estados Unidos em conseqüência da Guerra ao Terror promovida por aquele país, investigadores tem sido obrigados a lidar com provas físicas infectadas com antraz, o que por si só, desprezados os riscos a saúde, determina extrema cautela diante da possibilidade futura de contaminação de provas.
Um dos temas mais recorrentes na comunidade forense mundial, principalmente após os eventos de 11/09, diz respeito a possibilidade de se determinar a fonte de doenças em atos terroristas.
Outro termo novo para a ciência forense é justamente as pesquisas relativas a armas de destruição em massa, que podem consistir em químicas, biológicas, nucleares e de materiais radiológicos, as quais venham a se tornar parte de cenas de crime ou se misturar a provas e evidências associadas com cenas de crime.
É certo que os investigadores terão que estar muito bem informados sobre todos os tipos de novas áreas na saúde pública, atentados terroristas e atividades militares sobre os quais eles nunca tiveram a oportunidade de pensar antes.
Ainda relembrando as implicações para forças policiais do mundo inteiro relacionadas aos atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos seria muito importante perguntarmos qual é o papel que deve ser desempenhado por unidades de investigação em atividade relacionadas à investigação de incidentes terroristas?
Ainda mais quando é público e notório que o Brasil organiza suas atividades policiais em torno de duas instituições distintas, ou seja as Polícias Civis e Militares, sendo apenas aquela primeira a responsável constitucional pela elucidação de crimes.
A investigação de atos terroristas domésticos no Brasil estaria numa área obscura e não muito clara na medida em que poderia envolver a participação de nossa Polícia Federal ou eventualmente de umas das forças policiais civis dos Estados, especialmente se vários eventos simultâneos e distintos vierem a ocorrer.
Muito provavelmente haveria uma participação quase que imediata de bombeiros, socorristas e até da polícia local, o que implicaria em atividades de extinção de fogo, salvamento de vítimas, inspeção por peritos e investigadores de cenas de crime além da atuação de médicos legistas e seus Auxiliares de Necropsia.
Desta forma, se vários incidentes ocorrerem simultaneamente em todo o país, mesmo que venha a ser fato incontroverso a atribuição da Polícia Federal, ainda sim seria de se esperar que unidades estaduais e municipais seriam os primeiros que estariam nas cenas de crime para lidar com a mesma e as suas conseqüências, até que a Polícia Federal tenha condições de assumir as investigações.
Mas uma coisa chama muito a atenção: qual o grau de coordenação entre a Polícia Federal Brasileira e os órgãos de Segurança Pública dos estados e até mesmo dos Municípios? Existe algum tipo de Protocolo que estabeleça regras mínimas para lidar com este tipo de evento?
Nem todas as atividades em torno de um ataque terrorista é de responsabilidade do governo federal e da Polícia Federal, pois algumas funções estão claramente nas mãos das autoridades locais, tais como a identificação de vítimas civis em massa.
Exemplo disto está no acidente com o avião da empresa TAM nas proximidades do Aeroporto de Congonhas em São Paulo, no qual a Polícia Civil de São Paulo, através do Instituto de Identificação Ricardo Gumbleton Daunt e o Instituto Médico Legal realizaram o trabalho de identificação das vítimas. Portanto, é incontroverso que os Institutos Médicos Legais de todo o pais acabam por prestar assistência importante na identificação dos mortos.
Este fato tem uma outra implicação muito séria: poucos ou nenhum plano para lidar com eventos terroristas levam em consideração o papel de unidades de perícias locais em eventos desta natureza, ainda mais se levarmos em consideração eventos esportivos da envergadura de uma Copa do Mundo ou de Olimpíadas.
O terrorismo é uma das muitas questões que os profissionais envolvidos em investigações forense devem considerar nos anos que estão por vir, principalmente diante da grandiosidade dos eventos em que nosso país estará envolvido, muito embora; todas estas questões possam ser vistas como parte de um questionamento maior que é a falta de planejamento e protocolos de atuação.
Simplificando, há uma necessidade crítica para o desenvolvimento nacional de estratégias para a atuação individual e integrada das mais diversas unidades de segurança pública, uma vez que as partes envolvidas que fazem parte do sistema de ciência forense precisam estar integradas para atuar em conjunto em situações que envolvam grandes contingentes da população, deixando de lado a burocracia e criando mecanismos que privilegiam o fluxo instantâneo de informações.
O Governo Federal deveria preocupar-se em pensar nas seguintes questões antes da realização dos eventos esportivos mencionados:

• Qual é o valor da investigação forense aplicada ao sistema de justiça criminal?
Isto porque neste momento, não há medidas quantitativas (exceto relatos) que permitam demonstrar o valor de investir na investigação forense. Se a informação quantitativa pode ser desenvolvida para mostrar que um pequeno investimento em investigação forense poderia trazer resultados significativos e acrescentar significativo valor as atividades levadas à cabo pelas unidades policiais civis e Ministério Público, o investimento em atividades de investigação forense deveria ser muito mais fácil de ser realizado.
Isto para não lembramos que nenhuma informação está disponível para as vítimas e suas famílias a fim de demonstrar a relevância das atividades de investigação, o que certamente contribuiria para minimizar a desconfortável sensação de impunidade que impera em nosso país.
Surpreendentemente, nem mesmo os advogados apóiam a necessidade de maiores investimentos na verdadeira investigação forense, preocupando-se muito mais em girar a seu favor as rodas da burocracia judicial do que se envolver na investigação criminal.
Infelizmente, policiais investigadores que atuam com base em provas cientificamente colhidas são apenas personagens de programas de TV como os seriados “C.S.I.”, independente do fato de que a boa audiência destes programas no mundo inteiro é um claro indicador do potencial de sucesso das atividades ali apresentadas por seus protagonistas em apoio ao uso da ciência forense.
Uma coisa é indiscutível: no mundo inteiro tem se observado uma clara tendência ao crescimento do uso da ciência forense por unidades policiais nas suas atividades diárias, principalmente com a implantação de rígidos protocolos de controle de atividades e treinamento de policiais.
E mais: a demanda por testes de DNA certamente pressionará pela formação de muito mais cientistas forenses no futuro, sendo certo que os laboratórios policiais do mundo inteiro estão procurando mais cientistas forenses a cada ano.
E não é só isto: no mundo inteiro mais universidades estão se capacitando para oferecer programas de pós-graduação em ciências forense, o que implica na disponibilização de milhares de dólares para pesquisa.
No entanto, o Brasil caminha em sentido totalmente contrário ao que se pode observar no mundo inteiro, criando inclusive indesejáveis separações entre os diversos organismos que compõem seus órgãos de segurança pública, de forma a fomentar a burocracia e as desavenças entre os mesmos.
Fácil exemplificar o que falamos: em qualquer órgão de Polícia Científica de nosso país existe grave quebra da Cadeia de Custódia de objetos relacionados a cenas de crime e desobediência estrita as regras mais comezinhas de armazenamento e manipulação dos mesmos, até porque os mesmos chegam a passar semanas circulando entre unidades policiais civis e unidades de pericia por absurdas questões burocráticas!

• Torna-se urgente a compatibilização de questões relacionadas a Ciência e a aceitação de determinados tipos de prova pelos Tribunais.
Muitos advogados de defesa na esfera penal estão conseguindo obter sucesso em desafiar a confiabilidade nas provas colhidas pelo órgãos policiais, isto porque, contrariando tudo o que se vê no mundo inteiro, no Brasil a “Rainha e Soberana das Provas” é justamente a Prova Testemunhal.
Como todo meio de prova que depende das percepções sensoriais do ser humano, a prova testemunhal é falível, sendo apontada como o meio mais vulnerável das provas.
Em razão disso, os operadores do Direito convivem com esse tipo de prova e procurar aperfeiçoá-la com técnicas de inquirição e principalmente procurando desenvolver a cultura da seriedade e honestidade dos depoimentos.
É fato que as distorções da realidade pela testemunha nem sempre são intencionais, pois há fatos que acontecem de improviso, sem que a pessoa tivesse qualquer participação nem esperasse por eles, o que leva a ter uma percepção parcial e nem sempre correta do acontecido, como por exemplo num acidente de veículos.
Há casos em que o decurso do tempo e as fantasias que às vezes se criam em torno dos acontecimentos da via real são responsáveis pelo esquecimento daquilo que foi visto, ouvido, lido ou sentido.
A experiência mostra ainda que as palavras da testemunha ao Juiz nem sempre são suficientemente claras e nem sempre trazem ao espírito deste a correta representação da idéia que ela pretende transmitir, o que torna a prova testemunhal pouco confiável.
Na esfera criminal brasileira é fato incontroverso que os órgãos de investigação acabam por basear seu trabalho investigativo exclusivamente em provas testemunhais, sendo que a maioria dos inquéritos em andamento no país, apresentam quase que exclusivamente inquirições colhidas no curso das investigações.
E é ai que muitos problemas acabam ocorrendo…
A qualidade da coleta das inquirições em inquéritos policiais tem sido bastante questionada, na medida em que os policiais sequer conseguem coligir aos documentos produzidos a partir das informações prestadas o real significado das palavras proferidas.
Inquestionavelmente, tem proliferado em todo o pais alegações de que inquirições realizadas por órgãos policiais de forma alguma espelham aquilo que as partes declararam.
E para piorar, inúmeras inquirições surgem magicamente no meio de procedimentos investigatórios sem que ninguém saiba qual a razão até mesmo para sua existência, já que não guardariam qualquer pertinência com relação aos fatos apurados.
A realidade é que no Brasil o conteúdo das provas testemunhais foram erigidos ao status de provas inabaláveis, sem que qualquer investigador se preocupe em colher outras provas que atestem de forma científica a veracidade daquelas.
Nesta esteira, os advogados aproveitaram o problema de confiabilidade da prova testemunhal para excluir certas classes de evidência, sendo que em inúmeros casos de repercussão esses ataques têm sido geralmente muito bem sucedida, o que implica se esperar que este tipo de procedimento acabe por se tornar regra em Juízo.
Mas este tipo de conduta se torna ainda pior, na medida em que muitos policiais tem sua credibilidade em juízo questionada por firmarem seus depoimentos exclusivamente nas provas testemunhais que colheram durante uma investigação, ou seja, desacredita-se o policial para que se torne duvidosa algum tipo de prova que ele tenha colhido junto a testemunhas.
Tudo isto nos leva a perguntar que prova teria melhor credibilidade num processo criminal: a palavra de um investigador que apenas recebeu a informação de seu informante quanto a um réu ter praticado o furto de um veículo, ou individuais dactiloscópicas colhidas adequadamente do interior de um veículo e que comprovam ter sido o mesmo furtado por aquele que as produziu?
Agora imagine este tipo de problema num procedimento criminal destinado a apuração de uma conduta terrorista por um determinado acusado.

• Não seria o caso de se investir em Laboratório de Investigação Forense em todo o País?
Uma avaliação das necessidades dos órgãos de investigação forense é necessária para que se possa fornecer recursos adequados para a criação, aperfeiçoamento e manutenção de laboratórios de investigação forense e Institutos Médicos Legais permitindo assim que seja oferecidas investigações de qualidade e serviços forenses adequados aos órgãos da justiça criminal.
O Brasil não tem qualquer tipo de informação que permita aferir o número de investigadores forenses necessários ao atendimento das demandas de cada estado ou município
Quantos laboratórios seriam necessárias de acordo a área que se pretenderia atender?
Quantas unidades deveriam ser criadas para dar suporte científico as investigações de crimes? e Quantas unidades de treinamento deveriam ser criadas para permitir uma educação continuada aos investigadores forenses? Qual o papel do governo federal no desenvolvimento de soluções para estas preocupações?

• Qual é o papel de laboratórios forense em nível estadual e federal em caso de um ataque terrorista?
Como mencionei anteriormente, os papéis dos órgãos de investigação estadual e federal além dos órgãos de apoio municipais em caso de ato terrorista ainda não foram definidos.
Uma vez que estes papéis estejam definidos, serão estaduais ou federais os laboratórios forenses que deverão realizar os serviços necessários?
São perguntas demais que ainda estão completamente sem resposta.

• A colaboração entre a União e os Estados no que diz respeito a investigações e compartilhamento de informações tem sido suficiente?
As unidades forense estaduais desempenham um papel vital na administração da justiça e prestam apoio importante aos órgãos de investigação na esfera federal.
No entanto, um maior grau de colaboração entre os governos federal e estadual, no que diz respeito a investigações forenses, é algo absolutamente desejável.
Uma maior interação entre as forças estaduais de investigação e as federais é importante para permitir que todos os pontos de vista a respeito de uma investigação possam ser considerados.
Lamentavelmente não é o que ocorre na atualidade, havendo até mesmo um ranço de desconfiança entre as unidades policiais federais e as estaduais que se vêem com extrema desconfiança.
Exemplo claro disto pode ser observado nas investigações de crimes praticados por meios eletrônicos que envolvem Internet Banking e que são realizadas pela Polícia Federal.
A Polícia Federal apenas atua nestes casos quando existe interesse da União, o que implica em agir apenas quando determinados estabelecimentos financeiros são afetados, como é o caso da Caixa Econômica Federal.
Sabidamente, os criminosos que atuam neste modalidade delituosa agem contra inúmeros estabelecimentos bancários, o que dá atribuição as Polícias Civis dos Estados para as investigações.
Em momento algum a Polícia Federal compartilha informações com as Polícias Estaduais, as quais acabam por instaurar procedimentos investigatórios sobre fatos que a mesma já elucidou, mesmo tipo de situação que acaba se verificando quando a unidade policial federal instaura seus procedimentos para apurar casos já elucidados por órgãos policiais estaduais.
Em variadas ocasiões criminosos que são de interesse da Polícia Federal neste tipo de procedimento circulam por unidades estaduais e vice versa, sem que um órgão se comunique com o outro.
O estabelecimento de protocolos de investigação e compartilhamento de informações em nível nacional teria o desejado efeito de considerar essas e outras questões críticas com o resultado desejado para desenvolver bem consideradas políticas de investigação, juntamente com um financiamento adequado. O sistema de justiça e os público em geral seriam os maiores beneficiários com a implantação destes protocolos.

Mas não nos esqueçamos que há muito mais na investigação de uma cena de crime do que simplesmente técnicas adequadas de investigação policial e habilidade científica.
Aparência e percepção, bem como a capacidade de comunicar de forma eficaz em Juízo são igualmente importantes.
Nunca devemos perder de vista que aparência e percepção são tão importantes quanto o conhecimento, habilidades e capacidade, pelo menos aos olhos de um Juiz e do público.
Um investigador com a esperteza de Sherlock Holmes ou com a sabedoria e entendimento de Albert Einstein seria ineficaz em um investigação criminal, se ele ou ela foram incapazes de convencer um Juiz ou um Júri.
Habilidades de comunicação verbal são tão importantes quanto conhecimento técnico em ser um investigador bem sucedido.
Ética profissional também é algo essencial ao trabalho de um investigador.
Existe apenas uma maneira de conduzir as atividades realizadas por um profissional de investigação: com honestidade e integridade.
No entanto, em muitos casos, falhas éticas entre investigadores de delitos acabam por obscurecer alguns princípios fundamentais e necessários ao exercício de suas atividades.
Profissionais da justiça criminal deve saber como se comportar e quais ações são certas e honrosa.
Infelizmente em nosso país, por motivos dos mais banais e fúteis, noções de ética, dever e honra são ideais que foram esquecidos por alguns.
A discussão sobre este assunto deveria estar muito mais na moda porque os médicos forenses e investigadores da polícia, ocasionalmente, esquecem seus deveres públicos.
Além disso, aqueles que adentram nas carreiras policiais devem ter em vista que o seu papel no sistema de justiça criminal deve ser praticado de forma clara e inconfundível.
Numa investigação vários exemplos de conduta desonrosa me vêem à mente:

• Plantar provas e indícios na cena do crime para apontarem para um investigado;
• Coleta de provas sem observância de formalidade legais, na maioria das vezes alegando circunstâncias que exigiram o seu tipo de conduta;
• Falsificação de provas e indícios para melhorar a situação de alguma pessoa;
• Ignorar provas ou indícios na cena do crime que podem exonerar um suspeito ou ser um fator atenuante, mesmo que o seja por desleixo ou negligência;
• Utilização equivocada de recursos ou negligência no uso de equipamentos fornecidos pela administração pública;
• Confecção de laudos com base em interpretações inválidas de testes ou de provas para auxiliar acusados;
• Atuar em investigações sem ter qualquer tipo de expertise para lidar com as questões que estão sendo apuradas;
• Atuar de forma negligente sem relatar a seus superiores as dificuldades que enfrenta;
• Exagerar no uso termos, gírias ou palavras do jargão policial que são totalmente desconhecidas em Juízo ou para o público em geral;
• Praticar corporativismo não denunciando um colega, superior ou subordinado que se envolve em qualquer atividade listada anteriormente às autoridades competentes.

Esta lista de ações erradas podem ser classificadas de diversas maneiras, mas é certo que a maioria são falhas realmente de natureza criminosa, que podem resultar em penas de prisão para o infrator.
Outros representam conduta negligente e pode resultar em processo civil contra o investigador, um superior ou até mesmo contra o órgão ao qual o mesmo pertence.
No entanto, muitas destas transgressões administrativas constitui conduta antiética que pode resultar apenas em censura, suspensão ou expulsão de suas unidades.
Ocasionalmente, podem surgir situações que contêm um elemento de ambigüidade, como no caso da prestação de serviços particulares de consultoria ou assistência.
Neste caso, como o profissional poderia determinar o melhor curso de ação? Embora a resposta não seja clara em todos os casos, um bom método para um profissional resolver esta questão é fazer as seguintes perguntas:
• Eu ficaria orgulhoso de contar aos meus filhos ou meus pais o que eu fiz?
• Como meus atos podem repercutir na primeira página do jornal de amanhã? Se sua conduta permanecer incerta diante destes questionamentos, com certeza suas ações são inadequadas ou impróprias.

Aqueles de nós que investigam atos criminosos carregam um fardo difícil.
As conseqüências de nossa conduta são consideráveis e afetam uma grande quantidade de bens juridicamente protegidos.
Por nossas ações réus condenados podem enfrentar longos anos de confinamento, tudo em consonância com as provas físicas que coletamos e sobre as quais nós fornecemos nosso testemunho de especialistas.
Também é preocupante pensar que os responsáveis por cometerem atos criminosos podem ser postos em liberdade em decorrência de ações que possamos ter cometido ou em decorrência de nossa omissão.
Na verdade, poucas profissões carregam esta quantidade de responsabilidade ou detêm a confiança do público, como investigadores de crimes.
Longe do Brasil um caso se tornou um divisor de águas no que tange as técnicas de investigação forense: o caso Simpson.
O sistema de justiça criminal e de ciência forense Norte americano foram a julgamento. Muitos condenaram o julgamento taxando-o como um circo da mídia por causa da cobertura televisiva no tribunal.
Alguns acreditavam que o Sr. Simpson deveria ter sido condenado pelo assassinato, enquanto outros proclamaram que a justiça teria sido feita.
Na verdade, o júri analisou as provas e tomou sua decisão, sendo que a acusação não conseguiu provar a responsabilidade do réu, senão apenas uma razoável dúvida quanto a sua culpa.
A equipe de defesa de O. J. Simpson usou de uma estratégia consistente em discutir como as provas físicas deveriam ter sido tratadas e as técnicas adequadas para a realização da investigação de uma cena de crime , principalmente quando inquiriu os investigadores encarregados das investigações.
Há poucas regras imutáveis nas investigações de uma cena de crime, muitas delas baseadas em senso comum que podem ser aplicadas a maioria dos locais de crime, no entanto, muitas orientações não podem ser sempre seguidas.
Qualquer investigador de local de crime experiente sabe que embalar provas molhadas de sangue em plástico deve ser evitado.
Evidências biológicas molhadas empacotadas desta forma vão deteriorar-se muito mais rapidamente do que no ar seco
Diante disto roupas encharcadas de sangue ou roupas de cama, devem ser embaladas separadas em um plástico limpo para transporte imediato ao laboratório forense como uma forma apropriada de lidar com tais itens, se não há maneira de secá-los no local.
Mas é óbvio que situações diferem e é importante ser flexível dentro das possibilidades.
Como seres humanos, estamos sujeitos a erros. É impossível lidar com todas as investigações sem cometer alguns erros. Na melhor das hipóteses, podemos tentar cometer poucos erros e aprendermos com os erros do passado.
O caso Simpson desloco o foco da ciência forense do laboratório para a cena do crime, permitindo que o processo de investigação no local do crime assumisse um papel mais importante do que antes.
Advogados de defesa nos Estados Unidos aprenderam que, se eles forem capazes de mostrar que a manipulação inicial das provas na cena do crime foi cometida de forma errada, as mesmas poderão ser mantidas fora do julgamento, ou pelo menos restarão maculadas aos olhos do júri.
No Brasil, dada a natureza deste tipo de investigação, é algo muito comum advogados obterem sucesso em alegações de contaminação de provas, principalmente manipulação indevida de computadores por parte de investigadores.
Treinamento e educação continuada para investigadores e cientistas forenses, especialmente na coleta adequada e preservação de evidências físicas em cenas de crime, é extremamente importante.
Formação nas áreas técnicas e em como ser uma melhor testemunha é algo a ser enfatizado nos cursos de formação e aperfeiçoamento.
No Brasil inexistem protocolos que estabeleçam regras para a coleta de provas e indícios em locais de crime, algo que certamente deveria avaliado e urgentemente implantado.
Todo os policiais envolvidos na investigação devem seguir rigorosamente suas políticas internas e procedimentos no que diga respeito a coleta de provas e indícios, sendo as razões para isso evidentes.
Tem sido comum no Brasil que advogados de defesa tentem mostrar que as políticas e procedimentos de coleta de provas e indícios não existem, bem como que as práticas empregadas não são aceitáveis e nem que os policiais envolvidos tinham formação adequada.
É incontroverso que os resultados serão os piores possíveis: mesmo que as provas ou indícios apontem para o acusado, a coleta de provas impróprias ou inadequadas e técnicas de preservação inadequadas tornarão as provas e indícios inadmissíveis ou diminuirá o valor dos mesmos.
Felizmente, não tem sido comum aos advogados de defesa no Brasil levantarem questões sobre a qualidade dos laboratórios forenses aqui existentes e a capacitação adequada de seus profissionais.
Uma maneira de se avaliar a qualidade de um laboratório forense na maior parte dos países desenvolvidos é perguntar se ele detém algum dos credenciamentos mais aceitos no mundo no que tange ao nível técnico de suas perícias.
Na verdade, a exigência de certificação por parte de Laboratórios forenses no mundo todo é apenas uma questão de tempo, o que trará impacto significativo na admissibilidade de provas em Juízo.
No mundo inteiro órgãos policiais exigem que seus laboratórios de ciência forense atendam padrões internacionais de credibilidade, tudo como forma a garantir a integridade e a respeitabilidade de seus procedimentos periciais.
Assim como um usuário ciência forense deve esperar um laboratório a ser acreditado, um semelhante pergunta pode ser feita do praticante da ciência forense: é ele ou ela placa certificada?
Há também uma série de organismos de certificação em áreas como documentoscopia, toxicologia, odontologia, medicina, patologia, antropologia e psiquiatria que ajudam a identificar os profissionais mais competentes.
A certificação de investigadores forenses traz como principais benefícios:
1)A possibilidade de implantação de medidas de qualidade;
2)O aumento da credibilidade;
3)A introdução de um grau elevado de padronização entre os profissionais;
4)O reforço da confiança do cidadão.

No entanto, é preciso que se exija dos profissionais envolvidos programas de certificação em instituições da mais absoluta confiança e credibilidade, e não apenas participação em instituições que não faz mais de que exigir o pagamento de mensalidades.
Educação continuada e participação em seminários e workshops são essenciais para a competência e desenvolvimento profissional.
Isto é óbvio, na medida em que jamais consideraríamos nos valermos dos serviços de um médico, dentista, contador, advogado, ou outro profissional que periodicamente não freqüentasse cursos de educação continuada para manter sua competência profissional.
Assim como a educação continuada e a formação são importantes, existem uma variedade de modalidades de ensaio de proficiência que demonstram o domínio de procedimentos técnicos e que bem ajudariam no aperfeiçoamento de profissionais e laboratórios de investigação forense no Brasil.
Os cidadãos de uma democracia têm o direito de esperar que a justiça seja administrada de forma justa e imparcial, mas como admitir-se uma expectativa diferente desta diante dos graves problemas que relatamos?
Certamente a resposta deve ser cobrada de nossos administradores, sob pena de nosso país se torna motivo de chacota e zombaria por parte de outros países que aqui deverão comparecer para participar dos eventos desportivos descritos.
Está na hora de mais ação e menos discurso.

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